domingo, 18 de junho de 2017



MEROVÍNGIOS E CAROLÍNGIOS


Nos séculos IV e V, e ao longo dos séculos posteriores, a limes romana foi sucessivamente invadida por tribos germânicas, as quais originaram diversos reinos. Entre esses reinos, apenas os francos foram duradouros.

Sua primeira dinastia foi a dinastia Merovíngia, que deve seu nome a Meroveu, e surgiu na história com as vitórias de seu filho Childerico. O filho de Childerico, Clóvis, conseguiu unir sob seu controle a maior parte da Gália ao norte do Loire por volta de 486, quando ele derrotou Siágrio, o governante romano daquela região. Clóvis, anexou vários territórios em batalhas, e em 496, deu um passo importante para fortalecer seu poder real, convertendo-se ao cristianismo, ganhando o apoio da Igreja e da maior parte da população da Gália, constituída por cristãos. Fato que também contribuiu para aumentar a integração entre conquistadores e conquistados.

Após a morte de Clóvis, seu reino foi dividido entre seus quatro filhos, como era costume entre os francos. A tradição da divisão do reino entre os herdeiros continuaria no século seguinte. Mesmo quando mais de um rei merovíngio governava, o reino era concebido como uma entidade única governada coletivamente por vários reis - em seus próprios domínios - e a sequência de eventos poderia resultar na reunificação de todo o reino sob um único rei.

Um processo muito comum durante a idade média, enfraqueceu o poder da dinastia. Por serviços prestados ao rei, como recompensa, as terras do reino eram distribuídas para o clero e a nobreza. O que aos poucos acarretou numa perda de poder real nessas terras, que se submeteram aos senhores feudais.

O poder transferiu-se para os prefeitos do palácio (major domus). Destacando-se no cargo, Carlos Martel, barrando a expansão árabe em 732. Seu filho Pepino o Breve, com o apoio papal depôs o último soberano merovíngio, Childerico III, iniciando a dinastia Carolíngia. Em retribuição ao apoio, cedeu território a Igreja, que deu origem aos Estados Pontifícios (na Itália).

Em 768, Carlos Magno, filho de Pepino e o mais famoso e importante dos reis francos, assumiu o trono e expandiu suas fronteiras, aumentando seu poder sobre o reino. Pois, ao contrário dos merovíngios, ao conquistar novas terras e distribuí-las aos aristocratas, exigia um compromisso de lealdade com o rei suserano.

Carlos Magno também contou com o apoio da Igreja, que assim, propagava o cristianismo aos povos conquistados. Sendo inclusive coroado como imperador do novo Império Romano do Ocidente.

domingo, 16 de abril de 2017


GRÉCIA PRIMITIVA: CRETA


FINLEY, M.I. As ilhas. Creta. In:_______ Grécia primitiva: Idade do Bronze e Idade Arcaica. [S.l.]: Martins Fontes. 1990.




Segundo Finley (1990), Creta era pobre em recursos minerais e não tinha uma localização tão privilegiada para o tráfego marítimo como Chipre, vivendo um grande isolamento.

Entre 2500 a 2300 a.C., a população crescera consideravelmente. Seus aglomerados mais importantes situavam-se na extremidade da ilha, mas com o tempo, ocorreu um mudança para o centro. Havia aldeias até mesmo na inóspita região oeste.

Suas técnicas metalúrgicas básicas, provavelmente foram aprendidas das civilizações cicládicas, onde as adagas de cobre tornaram-se marca cretense. Por volta do término do Minoano Antigo, sua tecnologia atingiu o máximo possível de progresso na idade do bronze. O período seguinte, o Minoano Médio, a idade áurea de Creta, entre 2000 e 1600 ou 1550, caracterizou-se por um enorme avanço em outras esferas, no poder público, na riqueza e na arte.

Entretanto, talvez, a mais notável manifestação da originalidade cretense ocorresse no campo da escrita. Primeiro surgiu um tipo de escrita pictórica modificada. Posteriormente, nos primeiros séculos do Minoano Médio apareceu uma escrita mais sofisticada, denominada “Linear A”. Com o passar do tempo, a Linear A foi substituída pela Linear B, uma ramificação mais complicada.

A única referência importante que temos da escrita cretense provém de pequenas tábulas de argila, que surpreendentemente sobreviveram por acidente, nos incêndios que se seguiram à destruição dos palácios.

Nessas tábulas, os textos são curtos e bastantes limitados, consistindo em um tipo ou outro de lista. Para os cretenses, assim como os sumérios, as necessidades de uma administração centralizada constituíram um estímulo bem maior para o desenvolvimento da escrita do que as necessidades intelectuais ou espirituais.

Estudos apontam que Creta foi abalada por um grande terremoto no Minoano Médio III, seguido de uma reconstrução imediata, e um desenvolvimento maior que anteriormente observado. No Minoano Tardio II, observa-se outro abalo catastrófico, dessa vez sem recuperação. De acordo com Finley (1990, p. 48) a vida em Creta prosseguiu, “mas a era do poder e dos palácios encerrara-se definitivamente”.

quinta-feira, 6 de abril de 2017


HATSHEPSUT É O CARA!




Pertencente a XII dinastia, no Império Novo, Hatshepsut era a filha mais velha do faraó Tutmés I. Quando seu pai morreu, casou-se com seu irmão bastardo Tutmés II, filho de seu pai e uma concubina. Casamentos entre meio-irmãos, e até mesmo entre irmãos, eram comuns naquela época, entre a realeza, pois tinham o objetivo de manter a linhagem real.

Tutmés II veio a falecer logo. Com isso, Hatshepsut casa com Tutmés III, filho de Tutmés II, seu enteado e sobrinho, pelo mesmo motivo anteriormente explicado.  O novo governante não passava de uma criança, obrigando Hatshepsut a assumir o verdadeiro lugar de faraó. A mulher empoderou-se, definitivamente.

Adotando os atributos faraônicos como cetro, barba postiça, tanga curta e cauda de touro, Hatshepsut declara publicamente ser filha do deus Amon-Rá. O clero, devidamente abastecido, aceita a mesma como sua faraó.

Hatshepsut é considerada uma das mais importantes governantes do antigo Egito, tendo uma influência que ultrapassou os limites nacionais, mesmo que, posteriormente, seu sucessor tenha desprendido ações para apagar seu nome da lista de faraós. Faleceu em 1473 a.C., e foi a quinta governanta egípcia de sua dinastia. Seu corpo está sepultado no Vale das Rainhas e seus monumentos foram derrubados após sua morte .

Apesar de suas realizações, o sobrinho e enteado de Hatchepsut, Tutmés III tentou fazer desaparecer o seu legado perto do fim de seu reinado, possivelmente em represália pela usurpação do seu trono.

sábado, 25 de março de 2017


CINEMA E PRÉ-HISTÓRIA

Marcelo Ferraz




Segundo Ferro (2010), o cinema deveria ser visto como uma contra-análise da sociedade, com a possibilidade de apelar-se para outros saberes para melhor compreendê-la.

Para Miceli (2014), a maioria das pessoas considera como filmes históricos apenas aqueles que tratam dos romanos, dos faraós ou sobre guerras, não considerando a importância dos demais gêneros para a História.

Ricon (2016) sustenta a ideia de que qualquer filme pode ser pesquisado das mais diversas formas, e essa possibilidade é das mais crescentes atualmente em nosso país.

Nas obras cinematográficas analisadas, partindo do pressuposto elencado por Ferro, criamos uma ideia do que poderia ter sido o contexto do Homem pré-histórico, de forma ficcional, respeitando, até o possível o aspecto plausível.

Gosden nos alerta sobre esse cuidado ao se tentar recriar esse cenário.



A dificuldade e a escassez de evidências nos tornam desconfortavelmente cientes de que o esforço imaginativo necessário para compreender o passado pode facilmente nos levar à fantasia, a projetar nossas visões prosaicas do mundo na grande tela da pré-história humana (GOSDEN, 2012, p. 17).



Annaud, com sua Guerra do fogo (1981), permite-nos visualizar toda a mística e magia que circunda a presença do fogo entre os homens da pré-história.

No texto de abertura da película podemos observar:



80.000 anos atrás, a sobrevivência do homem, em uma terra vasta e inóspita dependia da posse do fogo.

Para  aqueles humanos primordiais, o fogo era um objeto de grande mistério, desde que ninguém o tivesse criado. O fogo tinha que ser subtraído da natureza. Tinha que ser mantido vivo – abrigado do vento e da chuva,  a salvo das tribos rivais.

O fogo era um símbolo de poder e um sentido de sobrevivência. A tribo que possuísse o fogo, possuiria a vida[1] (ANNAUD, 1981).



No filme, é possível observar a utilização de peles com o objetivo de proteção contra o frio, construção de tendas rudimentares, fabricação de lanças e utilização do próprio fogo para a alimentação e proteção do seu grupo social.

Tais artifícios, responsáveis pela sobrevivência e multiplicação da raça humana, são chamados de equipamentos por Childe (1981). Esses equipamentos permitiriam ao homem atuar sobre o mundo exterior e reagir em função dele.

Ao contrário de outros animais, que nascem providos de seus equipamentos naturais, o homem precisou criar e adaptar seus próprios equipamentos para sobreviver.

Pinsky (2001) nos diz que o homem é o animal mais inadequado para sobreviver em nosso planeta, entretanto, o mais poderoso. Em A guerra do fogo, o cineasta deixa evidente a utilização de equipamentos por parte do homem.

O filme conta a história de um grupo humano pré-histórico, que atacado por uma tribo rival, perde a posse do fogo, um bem precioso para a sua sobrevivência.

Dessa forma, alguns membros do grupo são obrigados a partirem em busca de outra fonte de fogo para garantirem a sobrevivência da coletividade, o que Lima (1985, p. 22) chamou de “uma fantástica reflexão sobre o poder”.

O filme de Annaud, trata de temas relevantes no cenário humano pré-histórico, como socialização, proteção contra predadores e tribos rivais, além de antropofagia e sexualidade.

Em 2001 – Uma odisséia no espaço (1968), realizado por Stanley Kubrick, alguns desses temas são tratados, dando evidência ao espírito beligerante do homem primordial, que em nome do bem-estar de seu grupo social, lança mão da violência como recurso.

Ambos os filmes são de grande utilidade para o estudo da pré-história, sendo que a obra de Kubrick serve ao propósito somente em sua parte inicial intitulada The dawn of man (O alvorecer do Homem).

A maquiagem, o figurino e o cenário, presentes em A guerra do fogo, levam-nos ao tempo-espaço pré-histórico, onde a música completa magistralmente o plano do diretor de fazer do espectador envolver-se com a jornada que se desenvolve na tela.

Na obra de Annaud,  em sua jornada, os homens pré-históricos escapam de predadores, digladiam-se com uma tribo antropofágica e encontram um grupo humano mais desenvolvido, assim denominado por dominar a arte da criação do fogo.

Esse momento é determinante no filme, pois ao descobrir, surpreso, que alguém consegue fabricar o fogo com suas próprias mãos, o personagem pré-histórico, inicialmente incrédulo vai às lágrimas, não conseguindo conter a emoção.

Pontuando e criando os momentos de emoção, tensão e alegria, a música criada por Phillipe Sarde, em A guerra do fogo, serve para envolver o espectador, além de servir de linguagem em um filme onde não se utilizam de diálogos inteligíveis. Para os diálogos dos personagens foi criada uma linguagem própria, derivada do alemão primitivo e de línguas latinas pelo escritor e linguista Anthony Burguess (LIMA, 1985).

Coincidentemente, o filme de Kubrick também tem poucos diálogos, sendo preenchido por música clássica.

O tema de 2001 – Uma odisséia no espaço, foi composta em 1896 por Richard Strauss, intitulada Also sprach Zarathustra, e é um dos mais icônicos temas musicais utilizados em obras cinematográficas, sendo facilmente reconhecida.

Na obra de Annaud, as relações sociais e sexuais do homem pré-histórico também são discutidas. Inicialmente percebe-se a formação da família endogâmica, como característica do grupo inicialmente tratado.

Friedrich Engels, em sua obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), trata da formação familiar, baseado em estudos antropológicos de Lewis Morgan, em A sociedade antiga (1877), que procurava tecer o desenvolvimento social dos grupamentos humanos, o qual foi classificado em estágios de selvageria, barbárie e civilização.

Segundo Morgan, as famílias surgiram de forma endógena, formando laços entre irmãos, onde havia um antepassado comum a todos, sendo chamada de família consanguínea, até que, com o tempo, essas uniões fossem formadas de forma exógena, ou seja, por elementos de grupos distintos, sendo chamada de família sindiásmica, tal qual se observa em A guerra do fogo.

Nas cenas finais do filme é observado a formação da nova família sindiásmica, com a presença da fêmea, oriunda de grupo social distinto, agora grávida.

Os filmes A guerra do fogo e a primeira parte de 2001 – Uma odisséia no espaço, são profícuos no estudo e no processo ensino-aprendizagem de Pré-História.

Ambas as obras tratam de questões pertinentes ao contexto do homem pré-histórico, e mesmo sendo apenas representações da realidade, permitem-nos criar um cenário plausível sobre o espaço-tempo analisado.

Mesmo sem a classificação de “filme histórico” – ambos classificados como ficção – as obras estudadas, como muitas outras, são reconhecidamente objetos de estudo histórico.

Tal condição, de reconhecer as obras fílmicas como fontes de pesquisa histórica, só foi possível graças ao advento dos Annales, e posteriormente à dedicação do historiador francês Marc Ferro, que encontrou continuidade na História Cultural.

Cabe ao professor e pesquisador de história saber explorar, da melhor maneira possível, este cabedal de informações, em prol do desenvolvimento da História.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



2001 – UMA ODISSÉIA no espaço. Direção: Stanley Kubrick. EUA: Metro-Goldwyn-Mayer, 1968. 1 DVD (148 min).

CHILDE, Vere Gordon. O que aconteceu na história. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Centauro, 2006.

FERRO, Marc. Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

A GUERRA do fogo. Direção: Jean-Jacques Annaud. França/Canadá: 20th Century Fox, 1981. 1 DVD (100 min).

GOSDEN, Chris. Pré-História. Porto Alegre: L&PM, 2012.

LIMA, César Garcia. A guerra do fogo. Bizz. n. 18, jan. 1987, p. 22.

MICELI, Paulo. Uma pedagogia da História? In: PINSKY, Jaime (org.). O ensino de história e a criação do fato. São Paulo: Contexto, 2014. p. 37-52.

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004.

NAPOLITANO, Marcos. Fontes audiovisuais:a história depois do papel, In: PINSKY, Carla Bessanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo : Contexto, 2008.

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2001.

RICON, Leandro. Apresentação. In: SOUZA NETO, José Maria; SCHURSTER, Karl; RICON, Leandro. Imagens em movimento. Ensaios sobre cinema e história. Rio de Janeiro: Autografia, 2016.



[1] 80,000 years ago, man’s survival in a vast uncharted land depended on the possession of fire.
For those early humans, fire was an object of great mystery, since no one had mastered its creation. Fire had to be stolen from nature. It had to be kept alive – sheltered from wind and rain, guarded from rival tribes.
Fire was a symbol of power and a means of survival. The tribe who possessed fire, possessed life.

quarta-feira, 15 de março de 2017


A FORMAÇÃO DA FAMÍLIA NA HISTÓRIA






Tratar da formação da família na história, obriga-nos, à princípio, a tentar definir seu conceito. Tal fato nos leva a descobrir uma miríade de significados, tanto no campo social, como antropológico, e até mesmo jurídico.

A família já serviu, inclusive, de assunto do materialismo histórico, quando Friedrich Engels publicou seu trabalho, sob o título de A origem da família, da propriedade privada e do Estado, em 1884.

Engels baseou seu estudo no tratado antropológico de Lewis Morgan, A sociedade antiga (1877), que procurava tecer o desenvolvimento social dos grupamentos humanos, o qual foi classificado em estágios de selvageria, barbárie e civilização.

Segundo Morgan, as famílias surgiram de forma endógena, formando laços entre irmãos, sendo chamada de família consanguínea, posteriormente entre primos, sendo chamada de família punaluana (ou panaluana), até que, por fim, essas uniões fossem formadas de forma exógena, ou seja, por elementos de grupos distintos, sendo chamada de família sindiásmica.

O termo “família”, propriamente dito, só viria surgir na antiga Roma, derivada de famulus, que designava os escravos que trabalhavam de forma legalizada na agricultura familiar (CUNHA, 2010), logo após surgindo a expressão família natural, dentro campo do direito romano.

Com a expansão e hegemonia da Igreja Católica Apostólica Romana, houve a transformação do casamento em única forma de criação da família.

A família seria então criada pelo casamento cristão entre duas pessoas de sexos diferentes, unidas através de ato solene e consumado pela relação carnal entre os nubentes.

Em nosso país, colonizado por Portugal e evangelizado sob os preceitos da Igreja Católica, o casamento era legalizado pela cerimônia religiosa, mantendo-se, segundo a lei, a forma patriarcal, com pleno domínio do homem.

Somente com a promulgação da Constituição Federal de 1988, é reconhecida a família como união estável entre homem e mulher, igualando-os na sociedade conjugal, eliminando-se as diferenças de direito.

Entretanto, o mundo contemporâneo não nos permite manter o conceito de família de forma tão estática, visto que a sociedade já percebe outros modos de constituição familiar, inclusive entre pessoas de mesmo sexo, amparadas pela lei.

Tema de inúmeras pesquisas e trabalhos acadêmicos, a família continua suscitando debates e erigindo conceitos.

Para Fonseca (2005), família significa coisas diferentes e seu significado depende da categoria social, mostrando-nos a diferença de percepção de significado do conceito em diferentes estratos sociais, e a forma de interação e formação de “redes de ajuda”, presentes nas camadas menos favorecidas, que tendem a expandir seus limites de área doméstica, fazendo parte de seu núcleo não só por seus vínculos consanguíneos, mas também de afeto.

Fonseca chama a isso de dinâmicas e relações familiares, onde define o laço familiar como uma relação marcada pela identificação estreita e duradoura entre

determinadas pessoas que reconhecem entre elas certos direitos e obrigações mútuos.

Da mesma forma, Carvalho (2005) trata das relações dos indivíduos dentro de seus grupos e redes sociais, e nos mostra a importância do fator sexual como força motriz para a união matrimonial de atores no mundo animal, levando-nos de volta ao conceito balizado pela Igreja Católica Apostólica Romana, como forma de contração de matrimônio e formação de família.

Além disso, dentro de vários grupos de primatas, segundo a autora, observa-se a formação de redes de ajuda mútua, favorecendo determinados indivíduos, no qual ele coloca como exemplos da função do vínculo interindividual na organização e na dinâmica de grupos sociais.

Tais redes de ajuda mútua, ou simplesmente “redes de ajuda” elencadas por Fonseca (2005), favorecem a extensão do conceito de família além de seus laços consanguíneos, incluindo-se aí ex-sogros, compadres e até amigos, segundo a autora.

Nos últimos anos tem sido propalado a “crise da família”. Goldani (1993) nos relata que, apesar de recentes pesquisas apontarem a família como a instituição de maior confiabilidade, há uma percepção “negativa” sobre a mesma, oriunda de degradação das condições de vida, violência, menores abandonados, crimes passionais, e estimulada pela mídia televisiva que trata de mostrar o amplo leque de estilos alternativos de vida, levando a família para o limiar de mudanças importantes, mas não necessariamente a seu desaparecimento.

Segundo a autora, o conceito histórico de família, defendido pela Igreja e Estado, em sua forma patriarcal, monogâmica e indissolúvel, encontra-se em conflito com o modelo de família classe média urbana, comum em um país de evidente crescimento da população das cidades.

Além disso, fica evidente o descaso do Estado, que em não realizar seu suporte a cidadãos de idade avançada, devido ao alargamento da expectativa de vida que vivemos hoje, deixa nas mãos da família o auxílio a seus membros, em um visível retrocesso dos serviços públicos.





O conceito de família tem sido alterado no decorrer do tempo, bem como sua composição. A forma de união consanguínea, presente nas uniões pretéritas, foi substituída por acordos de interesses, abençoado pela Igreja, e mantendo-se o estilo patriarcal.

Apenas em fins do século passado a mulher teve seu papel equiparado ao do homem, mesmo tendo sido observado um crescente número de famílias lideradas por mulheres (mães e avós) nas últimas décadas.

As mudanças constantes e irrefreáveis que sempre passaram as sociedades, permitem-nos antever as mudanças que serão absorvidas pela família, que já não ostenta a mesma imagem de tempos passados.

A união homoafetiva já é uma realidade em nossa sociedade.

Além disso, o nosso país passou, nas últimas décadas, por uma intensa transformação social, onde a maioria de sua população vive em centros urbanos, ao contrário do que ocorria anteriormente, com a maioria da população habitando áreas rurais.

Resta-nos, como futuros educadores, tentarmos acompanhar o curso da História e entendermos que não há receita para definir os membros de uma rede familiar, facilitando a convivência e o acolhimento, na tentativa de estímulo e reforço das redes de ajuda tratadas.

O próprio conceito de família é largo, amplo e, por vezes, contraditório.

Além disso, extrapolando a esfera profissional, é dever de todos, a cobrança de ações sociais de proteção à família por parte do poder público, em especial das menos assistidas, pois como bem elencado na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a família é elemento fundamental da sociedade.







Referências bibliográficas:

CARVALHO, A. M. A. Em busca da natureza do vínculo: uma reflexão psicoetológica sobre grupos familiares e redes sociais. In: J.C.Petrini e V.R.Cavalcanti (orgs). Família, Sociedade e Subjetividades: uma perspectiva multidisciplinar. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. p. 183-194.



CUNHA, Matheus Antonio da. O conceito de família e sua evolução histórica. In: Portal Jurídico Investidura, Florianópolis/SC, 27 Set. 2010.



FONSECA, Claúdia. Concepções de família e práticas de intervenção:uma contribuição antropológica. In: Saúde e Sociedade. v.14, n.2, p.50-59, maio-ago 2005.



GOLDANI, Ana Maria. As famílias no Brasil contemporâneo e o mito da desestruturaçao. 1993.

sábado, 4 de março de 2017



A HISTÓRIA PELO CINEMA

 

Graças ao trabalho de Descartes, ainda no século XVII, com o seu Discurso sobre o Método (1637),  inicia-se a prevalência da razão sobre a crença religiosa. No século XIX, a humanidade, já municiada do método científico, torna-se capaz de conceber um grande salto em vários campos, como por exemplo na matemática, física e, como não poderia deixar de ser, na ciência.

A história, que até aquele momento amalgamava-se com a filosofia, tinha por objetivo tornar-se ciência também, como tantas outras disciplinas eruditas.

A partir daí, tornava-se necessário criar mecanismos científicos para o ato de se escrever a História. A isso chamamos de historiografia, ou seja, a ciência da História, ou o produto do conhecimento histórico obtido racionalmente, obedecendo regras metodológicas e de cognição da história com pretensões de cientificidade (RUSEN, 1995, apud CORDEIRO, 2015).

Nos idos do século XIX, com o surgimento da Escola Positivista, consideravam-se fontes somente os documentos oficiais, limitando-se aos documentos de Estado.

Entretanto, a partir do surgimento dos Analles, começa-se a questionar a limitação das fontes oficiais. O resultado deste questionamento foi o significativo aumento do número de fontes possíveis de investigação por parte do historiador (SOUZA, 2003).

A partir daí, dá-se como fonte de pesquisa, também, as fontes orais, arqueológicas, audiovisuais, periódicos, entre outros que possam servir para contar a História. Mais recentemente, a partir da década de 1970, através de trabalhos de Marc Ferro e da Nova História (SANTIAGO JÚNIOR, 2001), começa-se, inclusive, a considerar as obras cinematográficas, como de importância historiográfica, em um claro sinal da multiplicidade de fontes as quais o historiador pode lançar mão.

À essa altura, convém questionarmos qual utilidade teria ao lançarmos mão das obras cinematográficas como ferramenta auxiliar no processo ensino-aprendizagem de história. Segundo Napolitano (2008, p. 236) “vivemos em um mundo dominado por imagens e sons”, o que por si só já seria suficiente para fazermos incorporar o cinema e outras tecnologias na sala de aula.

O cinema, palavra de origem etmológica grega, KINEMA (imagem em movimento),  “possibilita aqueles que o assistem de terem diante de seus olhos uma representação da realidade social da época em que vivem ou até mesmo de épocas passadas” (LIMA, 2015, p.1), facilitando a assimilação de assunto exposto em sala.

Mesmo o filme, sendo “imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História” (FERRO, 2010, p. 32), acima de tudo.

Entretanto, apesar de termos tal ferramenta disponível, “o uso de recursos cinematográficos ainda carece de melhoramentos por parte dos profissionais que o utilizam” (SOUZA; SOARES, 2003, p. 2). Há muito ainda o que se extrair de benefício da utilização das obras cinematográficas em sala de aula.

De certo, com o auxílio do cinema “é possível aprender História, e esse processo de cognição serve para interpretar a ação humana em tempos e lugares diferentes” (PEREIRA; SILVA, 2014, p. 318).

A utilização do cinema no processo ensino-aprendizagem favorece o estabelecimento de “diálogos com conceitos teóricos que remetem para discussões e as posturas em relação à iconografia e imagens, trazidas pelas novas abordagens historiográficas” (SOUZA; SOARES, 2003, p. 2), além de facilitar a “assimilação de conteúdos por parte dos alunos despertando o interesse pelo tema tratado” (LIMA, 2015, p. 95).

Um filme pode ser um excelente recurso didático. E como qualquer outro recurso didático, ele por si só, “não resolve os problemas no processo ensino-aprendizagem” (LIMA, 2015, p. 95), porém, os filmes “tem sempre alguma possibilidade para o trabalho escolar” (NAPOLITANO, 2004, p. 12).

Cabe ao historiador, desvencilhar-se de preconceitos e entender a obra cinematoráfica também como fonte de pesquisa, dando oportunidade de enriquecimento à Historia.


REFERÊNCIAS

FERRO, Marc. Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
LIMA, D.R.L. Cinema e história: o filme como recurso didático no ensino/aprendizagem da história. Revista Historiador, [S.l.], n. 07. p. 94-108, jan. 2015.
NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004.
NAPOLITANO, Marcos. Fontes audiovisuais:a história depois do papel, In: PINSKY, Carla Bessanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo : Contexto, 2008.
SANTIAGO JÚNIOR, Francisco das Chagas Fernandes. Cinema e historiografia: trajetória de um objeto historiográfico (1971-2010). História da historiografia, ouro preto, n.8, abr/2012, p. 151-173.

SOUZA, P.J.C; SOARES, V.G. Cinema e ensino de história. XXVII Simpósio Nacional de História. Natal. 22-26 jul. 2003.




sábado, 25 de fevereiro de 2017


AS REVISTAS ILUSTRADAS.




O nosso jornalismo nasceu oficialmente no inicio do século XIX, com a chegada da Família Real, que havia cruzado o oceano para escapar das garras de Napoleão Bonaparte. Ao chegar à sua colônia além-mar, Dom João VI autoriza a criação da A Gazeta do Rio de Janeiro, em 1808.

O gênero aos poucos se individualizou em face de outras formas de impressos periódicos. A Revista da Semana (Rio de Janeiro, 1900) é apontada como marco do surto - que se prolongaria por décadas - das chamadas revistas ilustradas ou de variedades.

Com apresentação cuidadosa, de leitura fácil e agradável, diagramação que reservava amplo espaço para as imagens e conteúdo diversificado, que poderia incluir acontecimentos sociais, crónicas, poesias, fatos curiosos do país e do mundo, instantâneos da vida urbana, humor, conselhos médicos, moda e regras de etiqueta, notas policiais, jogos, charadas e literatura para crianças, tais publicações forneciam um lauto cardápio que procurava agradar a diferentes leitores, justificando o termo variedades.

Tal uso cumpria função estratégica: diante do relativamente minguado público leitor/consumidor, o sucesso do negócio revista dependia de se conseguir ampliar ao máximo os possíveis interessados, permitindo incluir de tudo um pouco.

Em 1902, aparecia O Malho, outra importante revista de conteúdo humorístico. Ela duraria até 1954, tendo passado por várias transformações. Sua especialidade era a crítica política, realizada, principalmente, através das suas famosas caricaturas. O Malho foi uma das mais importantes revistas de crítica na República Velha, tendo, a partir de 1904, a ter um caráter mais político, com a colaboração de Olavo Bilac.

Já a revista Fon-Fon! cujo título foi inspirado em uma buzina de automóvel, foi uma revista que se baseava no glamour carioca. Tudo era com muita ilustração, fotografia, e também, muita literatura.

Assis Chateaubriand, dono do grande conglomerado Diários Associados, lançou O Cruzeiro, a revista que fechou um ciclo na história das revistas brasileiras. Com uma programação visual arrojada, privilegiando a fotografia e reportagens mais objetivas, O Cruzeiro logo dominou o mercado editorial tornando-se referência gráfica, literária e jornalística no Brasil.

O Cruzeiro, mais que informar, passou a interferir nos hábitos e costumes de uma sociedade, ou seja, passou a transformá-la. E, com isso adquiriu um grande prestígio, fazendo que outras revistas passassem a ingressar numa nova era, a da reportagem.

Já no ano de 1952 surgiu à revista Manchete , empregando uma concepção moderna, tendo como fonte de inspiração nitidamente a ilustrada Paris Match e utilizava, como principal forma de linguagem, a fotografia. Manchete foi semanário que mais utilizou a fotografia como principal forma de linguagem.

A Manchete atingiu logo de início um rápido sucesso, e, em poucas semanas chegou a ser a segunda revista semanal de circulação nacional mais vendida do país, ficando atrás apenas da renomada e, até então, hegemônica O Cruzeiro.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla (org). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2008. p. 111-142.



MOURA, Ranielle Leal. História das Revistas Brasileiras: informação e entretenimento. VIII Encontro Nacional de História da Mídia. Guarapuava, PR. 28 – 30 abr. 2011.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


MEMÓRIAS MUSICAIS



MOTTA, Nelson. Noites  tropicais. Solos, improvisos e memórias musicais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.


Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o breve século XX finda em 1989, ruindo junto com o muro de Berlim e o comunismo soviético.

Coincidentemente ou não é quando acaba o movimento do rock brasileiro. Nelson Motta, produtor musical, compositor, jornalista e escritor em seu livro Noites tropicais, mostra-nos o caminho traçado pela música brasileira no breve século XX, como se fosse um Hobsbawm das cordas, tambores e metais.

A partir do final da década de 1950, com o advento da modernização, surge nas praias cariocas a bossa nova, fusão do jazz americano e do samba do Rio de Janeiro; e com seu jeito inovador de tocar e cantar, João Gilberto cativa e seduz os amantes da boa música.

É nesse momento que surge, entre outros, Nara Leão, inicialmente empossada como musa da bossa nova, e anos depois a voz ativa do espetáculo Opinião, show da esquerda intelectual, contrário aos militares, já nos anos 1960.

De uma forma divertida e ritmíca, Motta discorre entre a jovem guarda, tropicália e rock. Chega a confessar passagens de foro pessoal, como o caso amoroso que teve com Elis Regina, segundo o autor, a maior cantora que ele conheceu, e acontecimentos pitorescos envolvendo Roberto Carlos e Tim Maia.

Testemunha ocular da história da música nos últimos sessenta anos, Motta descreve toda a sua trajetória realizada dentro do universo musical.

Obra indispensável para os amantes da música e da história cultural.

Play it again, Sam.


Conheça Nunca fomos tão brasileiros, da banda brasiliense Plebe Rude em www.hailrock.blogspot.com.br/2017/02/lugarnenhum.html?m=1
  

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017


PERDENDO O BONDE.


DACANAL, José Hildebrando. Brasil: do milagre à tragédia (1964 – 2004). Porto Alegre: Leitura XXI, 2005.

 

Em seu ensaio, Brasil: do milagre à tragédia, o professor e jornalista José Hildebrando Dacanal, tenta traçar um paralelo entre os distintos países chamados Brasil, aquele das décadas de 1960/70, dominado pela mão dos militares e o Brasil da década de 2000, e seus problemas.

Dacanal expõe, entre outros pontos, o que favoreceu o surgimento do milagre brasileiro, como “resultado de um conjunto de fatores obviamente heterogêneos” (DACANAL, 2005, p. 15) que transformou um país de características agrárias, levando-o da pré-história à era do petróleo, dos transportes rápidos e das comunicações internacionais.

Entretanto, segundo o autor, o esgotamento do projeto militar, pressões externa e interna, entre outros fatores, levaram o país à década perdida dos anos 1980.

Dacanal é enfático em nos mostrar que o vácuo criado pelo retorno dos militares aos quartéis e a devolução do comando do país à sociedade civil, promoveu o retorno da velha elite política, que afastada do poder há mais de duas décadas, só tinha em mente o projeto de se apropriar do Erário Público, “[...] na senda da secular tradição das classes dominantes ibéricas, cuja visão patrimonialista sempre englobou, antes de tudo, o próprio Estado e os recursos de que ele se adona [...]” (DACANAL, 2005, p. 55).

Prova disso foi a enxurrada de concessões políticas na Era Sarney, com o único objetivo de se comprar apoio político. Tal nefasta artimanha seria copiada em governos futuros, vide a compra de apoio para a aprovação da emenda constitucional que permitiria a reeleição para chefes do Executivo, realizada no governo de Fernando Henrique Cardoso, ou no processo do mensalão do governo Lula.

Segundo o autor, “[...] esse perverso conúbio das velhas oligarquias com as novas forças gestadas [...] visava como sempre, à pilhagem do Estado” (DACANAL, 2005, p. 56).

Indo além, Dacanal expõe, o que para ele se transformou o Partido dos Trabalhadores, nos últimos anos.



[...] um conjunto espantoso de corporativistas ensandecidos, adolescentes desorientados, arrivistas lépidos, vigaristas sociais, totalitários enrustidos, messiânicos desarvorados, camponeses desesperados, intelectuais arrogantes, sindicalistas mais ou menos ignorantes, ingênuos bem intencionados e demagogos ilustrados [...] (DACANAL, 2005, p. 50).



Como ideologia, o PT foi a última ilusão do Brasil arcaico, fruto das transformações sociais e econômicas iniciadas ainda na década de 1970, abandonadas na década de 1980 e utilizada como discurso populista nas décadas posteriores.

Brasil: do milagre à esperança, não traz nenhuma receita de como transformar esse país, saqueado e vampirizado há tantos séculos, em uma nação digna, mas faz com que encaremos o que, consciente ou inconscientemente, tentamos jogar para debaixo do tapete.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


PALAVRAS MACHUCAM










PONDÉ, Luís Felipe. A era do ressentimento. São Paulo: LeYa, 2014.



Luiz Felipe Pondé, filósofo e escritor brasileiro, doutor em filosofia pela Universidade de Paris e pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, amado por uns e odiado por outros tantos, é autor de A era do ressentimento, obra em que expõe, como de costume, sua crítica ao mundo politicamente correto.

Em seus textos/crônicas, Pondé aponta sua metralhadora para vários alvos, e especificamente, mira e acerta nos “ressentidos”, que segundo ele “são pessoas que passam a vida buscando não sentir o que a vida é”. São, em geral, pessoas que por não serem o que desejariam, odeiam e se ressentem das que o são, sendo o ressentimento uma forma invisível de cegueira, segundo o autor.

De acordo com Pondé, Nietzsche foi o primeiro filósofo a perceber de forma clara o ressentimento como marca humana essencial, sendo a luta de classes, proposta pelo marxismo, fruto do ressentimento social existente entre o proletariado e a burguesia. O ressentido de hoje, afoga suas mágoas e deficiências emocionais no consumo desenfreado, que aplaca seu vazio existencial momentaneamente.

Outro alvo do autor é a “mulher independente”, que seria melhor definida como incapaz de encontrar um homem que queira fecunda-la e que a obedeça, do que como mulheres sem filhos e profissionalmente ativas, como preferem as feministas.

Segundo Pondé, vivemos um tempo em que nos transformou em seres covardes e solitários, dependentes da “cultura do narcisismo”, que nos leva a envelhecermos como retardados felizes. Tal covardia consolida-se pelo ensino atual, onde professores afirmam que matar é feio e opressor, o que teria permitido, se fosse hoje, a Alemanha vencer a segunda guerra mundial, tal diferença existente entre as gerações.

Tal ensino, associado aos ditames dos politicamente corretos tenderão a castrar nosso jovens machos, que se sentirão obrigados a sentirem desejo por outros jovens machos, pois o policiamento dos politicamente corretos tornará, em um futuro próximo, crime, o simples ato de olhar para uma mulher. O que dirá olhar com desejo.

A era do ressentimento é indicada para as pessoas que se sentem sufocadas em um mundo cada dia mais chato e monocromático, como o que vivemos, e gostaria de saber que não é o único que pensa dessa forma.

Ótimo livro.

Mas não o leia se você for um ressentido. Pode te magoar.



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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


NOS TEMPOS DO CABRAL




STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Porto Alegre: L&PM, 2008.

“Lá vem sua comida pulando”, a frase dita pelo alemão Hans Staden, diante de seus raptores tupinambás, foi, segundo Eduardo Bueno, responsável por Tarsila do Amaral decidir pintar seu quadro Abaporu, e Oswald de Andrade deflagrar o movimento antropofágico, marcos que eclodiriam na Semana de Arte Moderna.

Mas quem foi Hans Staden? Apesar de informações escassas sobre este alemão, sabe-se que foi um aventureiro e mercenário que empreendeu duas viagens ao Brasil, ainda na primeira metade do século XVI.

Tais viagens ao nosso país são o tema de seu relato, uma história verídica que conta a descrição de uma terra de “selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, [...] desconhecida antes e depois de Jesus Cristo”, segundo as próprias palavras de Staden.

O livro é antes de tudo um relato de fé, pois sendo Staden, um cristão que se deixou apanhar por índios antropófagos, é frequente, em sua narrativa dos fatos vividos, a esperança depositada em um auxílio celeste, espiritual, metafísico, ou como você preferir chamar.

Por outro lado, não é difícil tomar seu lado, frente a incansável ameaça de poder ser morto e devorado a qualquer momento pelos (como ele próprio chama) “selvagens” e “cruéis” tupinambás, que fariam os defensores do evolucionismo cultural bradarem suas teorias com uma certeza cristalina.

O livro  A sociedade antiga de Lewis Morgan seria publica apenas em 1877, mas o relato de Staden passaria muito bem por um estudo sobre evolução cultural. De um lado, um cristão europeu, temente a Deus, responsável pela segurança de sua vila, imbricada no meio do inferno verde da mata e defensor da coroa real; e do outro lado, os selvagens comedores de carne humana.

De qualquer forma, dentro do relato sobre as duas viagens ao Brasil, todo o tom macabro é referente à última. É bem provável que, depois de toda a carga de temor e adrenalina presente, o jovem Staden não se dispôs a fazer uma terceira. Vai que a sorte muda...

Outra característica que chama a atenção é o fato de portugueses e tupinambás, apesar de se digladiarem frequentemente, serem capazes de realizar negócios, como exposto no capítulo 38.

Era comum os portugueses irem também para as terras de seus inimigos, embora viajassem bem armados, para fazer comércio com eles. Eles dão aos selvagens facas e foices em troca de farinha de mandioca, que os selvagens têm em abundância em algumas regiões (STADEN, 2008, p. 77).


A narrativa de Staden dá margem para uma avaliação de costumes, tanto por seus habitantes naturais como por seus invasores, em uma terra ainda inexplorada, precária e carente.

Apresenta uma leitura leve com seus capítulos curtos de narrativa clara e ágil, sendo obra obrigatória a quem se propõe desvendar nuances de um Brasil ainda desconhecido e misterioso.




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domingo, 1 de janeiro de 2017

A SEXUALIDADE GREGA




Existem vários estudos sobre a importância que as culturas helenas dedicavam ao contato sexual entre seres do mesmo sexo biológico e a falta de influência das mulheres perante os homens (SOUZA, 2007).
Entretanto, antes de tudo, é necessário entendermos o contexto histórico, social e cultural para que não sejamos traídos pelas armadilhas do anacronismo.
O que entendemos por sexualidade, nada mais é do que um conceito moderno do qual os gregos não compartilhavam. O próprio termo “homossexual” foi utilizado pela primeira vez em 1869, pelo belga K. M. Kentbeny (CORINO, 2008), e o que temos hoje, como conceito e ideia sobre sexualidade é devido à nossa herança judaico-cristã (FUNARI, 2002).
O “amor nobre” era baseado em uma relação de educação, pedagógica, entre professor e aluno. A palavra pederastia é originada de paidos, em grego, menino, assim como  pedagogia.
Os romanos se referiam às relações entre homens de “amor à grega”, onde os professores, mais velhos, relacionavam-se sexualmente com seus alunos, jovens entre 12 e 18 anos de idade, não sendo portanto considerados “homossexuais”, pelo fato deste termo não existir à época.
Tal costume era generalizado entre a elite, e as classes menos favorecidas aceitavam como normal.
Haviam banquetes onde se comia, bebia, e filosofava. Além disso, tais banquetes, vez por outra, transformavam-se em orgias sexuais, envolvendo homens com homens, e homens com hetairas (as “companheiras”, não esposas).
As únicas falhas que um homem poderia cometer era se deixar levar pela paixão por outro homem, submetendo-se assim a passividade diante do outro; ou o descontrole que levasse um homem a exibir modos efeminados.
Segundo Corino (2008), em Atenas existia um bairro chamado Cerâmico, onde a prostituição, tanto feminina quanto masculina, era liberada, e os jovens que a praticavam, faziam pelo dinheiro ou simplesmente pelo vício em sexo. A prostituição masculina era permitida por lei, entretanto a seus  praticantes não era permitido a ocupação de cargos públicos, por se acreditar que um homem que vendia seu corpo não hesitaria em vender os interesses da cidade.
Além disso, as relações entre homens de mesma idade não era bem aceita. O que se aceitava socialmente era a relação de um homem mais velho (eraste) com seu jovem pupilo (eromenos), como relatado anteriormente, como uma relação pedagógica.
As mulheres gregas tinham uma única missão na terra: procriar. Eram incapazes de transmitir conhecimento, sendo encaradas como intelectual, física e emocionalmente inferiores aos homens, que detinham o poder político e eram responsáveis por educar os mais jovens, que por sua vez absorveriam conhecimento, casariam, procriariam e seriam professores de outros jovens no futuro, com quem se relacionariam sexualmente.
Com o advento do cristianismo e da ideia do “pecado original”, dando ao sexo o papel de simples reprodução, o conceito grego foi abolido.

PARA LER MAIS:
FUNARI, P. P. Grécia e Roma. São Paulo: Pinsky, 2002.
CORINO, Luiz Carlos Pinto. Homoerotismo na Grécia antiga – homossexualidade e bissexualidade, mitos e verdades. BIBLOS, [S.l.], v. 19, p. 19-24, jan. 2008.
SOUZA, Luana Neres de. A sexualidade na Grécia antiga. História Revista. Goiânia. v. 12, n. 2, p. 387-390, jul./dez. 2007.

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